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Críticas

AS VIÚVAS | Crítica do Filme “De Ação” do Diretor Steve McQueen

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Foto: Divulgação

Talvez querendo sair de temáticas mais reflexivas quanto as que abordou em suas duas premiadas produções anteriores – Shame e 12 Anos de Escravidão – o artista plástico, fotógrafo, produtor e cineasta britânico, Steve McQueen (diretor de apenas 5 filmes, sendo 2 independentes e 3 hollywoodianos), foi buscar numa quase obscura série televisiva de sua terra natal – Widows produzida pela ITV Network de 1983 a 1985 – a inspiração para seu próximo filme, que “quase” poderia ser enquadrado no gênero “ação”.

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Trata-se de Widows (As Viúvas), baseado na série homônima, que apesar de desconhecida do grande público, na Inglaterra ganhou o prêmio de melhor série dramática em 1984.

A premissa do filme (e série) gira ao redor de um assalto planejado por um grande criminoso – Harry Rawlings (Liam Neeson) – e seu grupo – formado por Florek Gunner (Jon Bernthal), Carlos Perelli (Manuel Garcia-Rulfo) e Jimmy Nunn (Coburn Goss) – que, surpreendentemente, acaba muito malsucedido, com a morte da quadrilha (não se trata de spoiler, já que isso está na sinopse do longa!).

Suas viúvas – Veronica Rawlings (Viola Davis, imponente), Linda Perelli (Michelle Rodriguez), Alice Gunner (Elizabeth Debicki) e Amanda Nunn (Carrie Coon) veem-se em situações dramáticas decorrentes tanto do assalto, quanto da morte e da vida e personalidade de seus falecidos maridos, tendo que, mesmo contra sua vontade, unirem-se para realizar o último assalto planejado por Harry, única solução para saírem ilesas dos bastidores sórdidos da política, da polícia, do submundo e do poder em geral (inclusive religioso) de uma eterna soturna e corrupta Chicago (competentemente fotografada por Sean Bobbitt, de 12 Anos de Escravidão, Hunger – segundo filme de McQuenn – e da refilmagem norte-americana de Old Boy).

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Passeiam, ainda, pela tela, atores do peso de Colin Farrell (Animais Fantásticos), no papel do político Jack Mulligan; Robert Duvall (Jack Reacher), como o político veterano e pai de Jack, Tom Mulligan; e o ‘novato’ Daniel Kaluuya (Corra), na pele do psicopata Jatemme Manning.

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Em termos de condução, o filme começa de forma surpreendente, com uma cena íntima entre o casal formado por Liam Neeson e Viola Davis (igual, até em enquadramento, à tomada inicial de 12 Anos…), que busca deixar clara a paixão que une os dois, mas rapidamente é cortada e intermeada para a cena do roubo com final trágico, por meio de uma câmera subjetiva que confere urgência e realismo à sequência, permeada por fuga, tiroteio, sangue e drama. Ainda nos é apresentado – neste início bombástico – um mosaico de cenas curtas em que os personagens dos ‘maridos’ e das futuras ‘viúvas’ são mostrados e entendidos em breves segundos na tela, mostrando o domínio narrativo do diretor, que não precisa de mais que algumas poucas falas para mostrar  a personalidade de cada personagem, ainda que recorrendo a clichês óbvios, como o ladrão e marido abusivo vivido por Jon Bernthal, que parece ser uma cópia do seu personagem Griff, em Ritmo de Fuga.

McQueen demonstra segurança, coragem e competência na direção daquela que pode ser considerada sua primeira cena de ‘ação’; porém, após o final deste ‘prólogo’ literalmente explosivo, o filme retorna a um primeiro ato burocrático, com cenas de enterro e injustiças para com as viúvas; apresentação de personagens importantes e um lento desenvolvimento da trama, que se estende por quase todo o resto do longa, até as cenas finais com o novo assalto a ser realizado.

Algo que caracteriza o filme é o caráter dos personagens. Todos têm algo a esconder, um lado obscuro e eticamente questionável. À exceção talvez do Jatemme Manning de Daniel Kaluuya – caprichando no carão sádico e meio louco e mais unidimensional – políticos, policiais, gangsters e as próprias viúvas possuem “um lado negro” bastante evidente. Isso enriquece a narrativa, pois os personagens surgem como pessoas mais realistas, dotadas de defeitos e virtudes em igual medida.

Há algumas metáforas interessantes sobre essa sordidez humana. Num dado momento, McQuenn opta por um plano sequência em que o personagem de Colin Farrell, candidato a vereador do 18º distrito de Chicago, conversa com sua assessora e mulher dentro do carro, confessando o quanto ele gostaria de “sair daquela vida”. A imagem mostra o carro com vidros escurecidos do lado de fora apenas, enquanto é possível escutar a fala de Jack Mulligan, como se ali fosse um mergulho dentro de si mesmo, um mea culpa íntimo. Fantástico.

Até a metade do filme, McQueen continua inserindo personagens, cuja importância só ficará evidente quando o filme já se encaminha para o final, como o caso do pastor Wheeler, vivido por Jon Michael Hill, numa curta aparição física em cena, mas de suma relevância para o desenrolar do arco dramático político do longa.

Mas, quem brilha mesmo são as mulheres. McQueen contou com a colaboração luxuosa de Gillian Flynn – autora de Garota Exemplar, Lugares Escuros e Objetos Cortantes – para escrever o roteiro de As Viúvas, de maneira que os sentimentos e ações das mulheres do longa são sempre críveis.

Destacam-se Elizabeth Debicki (Guardiões da Galáxia vol. 2), estonteantemente alta, magra e sofrida; e, lógico, Viola Davis (How to Get Away With Murder e Esquadrão Suicida), que claramente se talhou fisicamente para o papel de Veronica Rawlings e transita da mulher frágil e apaixonada para a determinada líder criminosa com maestria. Michelle Rodriguez demonstra uma fragilidade incomum de se ver em suas personagens e Carrie Coon pouco contribui, pelo pouquíssimo tempo em tela. Uma nota especial cabe para Cynthia Erivo e sua Belle. A atriz realmente convence que Belle é uma mulher extremamente capaz de fazer o que ela faz no filme. Digna de aplausos!

(A atriz Ann Mitchell, que interpretava uma das personagens da série televisa que embasou o filme, faz uma participação especial como a mãe de Amanda, personagem de Carrie Coon)

Foto: Divulgação

Os pontos negativos do longa ficam pela mão pesada que Steve McQueen emprega ao longo do (longo) longa como um todo, com apenas uma ou duas cenas levemente humoradas, levando-se tanto a sério, que chega ao ponto de fazer o espectador questionar algumas das situações mostradas, como a facilidade com que as mulheres se unem numa relação de altíssima confiança e cumplicidade mesmo sem terem tido contato prévio umas com as outras e a disposição para fazerem o que fazem para alcançar os objetivos traçados.

Uma pequena dose de leveza contribuiria para um maior envolvimento com aquelas personagens, já que se trata de um filme claramente ficcional e enredo quase fantástico (algo que Viola Davis, inclusive, diz num dado momento ao argumentar o porquê que o plano daria certo).

A reviravolta final (na verdade no fim do segundo ato do filme) também é bastante previsível para quem já está acostumado a filmes policiais de ação e suspense, o que tira um pouco do impacto da obra.

Em resumo, Steve McQueen mostra com As Viúvas que é um diretor que não se acomodará a apenas um gênero de filme, transitando por enredos diferentes, mesmo que o resultado – como nessa análise final de As Viúvas – seja um pouco irregular se comparado a seus filmes antecessores.

Mas sempre será um prazer assistir aos belos planos, sequências e tomadas que McQueen escolhe para narrar suas histórias, bem como sua estupenda capacidade de extrair interpretações tão verdadeiras de seus atores.


Pontuação de 0 a 5

Nota: 3,5 (muito bom)


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Sou um quarentão apaixonado pela cultura pop em geral. Adoro quadrinhos, filmes, séries, bons livros e música de qualidade. Pai de um lindo casal de filhos e ainda encantado por minha esposa, com quem já vivo há 19 bons anos, trabalho como Oficial de Justiça do TJMG, num país ainda repleto de injustiças. E creio na educação e na cultura como "salvação" para nossa sociedade!!

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