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Críticas

KARDEC | Crítica do Neófito

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A primeira cena de Kardec – filme dirigido por Wagner de Assis (Nosso Lar, 2010) – mostra vários pares de mãos unidas pelo dedo mínimo a formarem uma mandala sobre uma mesa redonda de madeira, que, subitamente, começa a subir sozinha e suavemente pela sala, passando pelo rosto incrédulo de Hippolyte Léon Denizard Rivail (que futuramente passaria a assinar as obras espíritas sob o pseudônimo de Allan Kardec) e as expressões concentradas dos demais participantes da reunião, até que, por meio de uma tomada superior, a mesa respectiva sobe em direção à câmera até cobrir toda a tela e todas as pessoas que se encontravam ao redor dela, olhando para cima e apreciando o fenômeno.

Foto: Divulgação

De certa forma, isso acaba se mostrando uma metáfora para a vida do pedagogo, educador, discípulo de Pestalozzi e codificador do Espiritismo: a obra espírita ao qual o Prof. Rivail se dedicou a partir daquele momento retratado no filme, de certa forma “cobriu” ou “obscureceu” o homem por detrás da magnífica obra (independentemente de crença e considerando seu impacto histórico-mundial) que ele praticamente sozinho produziu, na forma de 5 famosos livros – O Livro dos Espíritos (1857), O Livro dos Médiuns (1861), O Evangelho Segundo o Espiritismo (1864), O Céu e o Inferno (1865), A Gênese (1868) – na publicação da Revista Espírita (1858-1869), além de outras publicações esparsas.

Foto: Divulgação

É, portanto, muito difícil avaliar um filme desse matiz, que “baseado em fatos reais” – como também é anunciado nesta primeira cena –, busca retratar biograficamente um personagem quase mitologizado e, pelo menos no Brasil – o “país mais espírita do mundo” –, praticamente idolatrado pelos adeptos do Espiritismo.

Mesmo tendo surgido na França do século XIX, por meio dos esforços de Allan Kardec, foi no Brasil do século XX, muito por causa do médium Chico Xavier, que o Espiritismo – ou Doutrina Espírita – tornou-se uma “potência religiosa” – termo que os espíritas não gostam muito – capaz de influenciar até mesmo pessoas de outros credos, afinal, não é difícil encontrar um católico que acredite em reencarnação ou um evangélico às voltas com fenômenos mediúnicos.

Em razão disso, fica mais fácil compreender por que foi o Brasil – e não a França – que acabou por produzir livros e agora este filme biográfico sobre Prof. Rivail/Allan Kardec, ainda que se circunscrevendo a retratar apenas um pequeno recorte de sua biografia (de 1852 a 1861), focada no início dos estudos espiritistas levados a efeito por ele.

Feita esta pequena introdução contextualizadora, voltemos ao filme em si.

Assim como os evangélicos norte americanos têm uma verdadeira Indústria Cinematográfica Cristã, materializada em produtoras como a Sherwood Pictures ou a Pure Flix Entertainment (responsável pela franquia Deus Não Está Morto), o Brasil possui um segmento de obras de cunho católico (Maria, Mãe do Filho de Deus (2003) e Irmãos de Fé (2004), ambos estrelados pelo Padre Marcelo Rossi); outra de produções neopentecostais (principalmente patrocinadas pela Rede Record / Igreja Universal do Reino de Deus, como é o caso da conversão em filme da novela Os Dez Mandamentos); e, há pouco, um “boom” de filmes de temática espírita, iniciado com Bezerra de Menezes: O Diário de um Espírito (2008), passando por Chico Xavier e Nosso Lar (ambos de 2010), até O Filme dos Espíritos e As Mães de Chico Xavier (2011), sem contar com o quase execrável E A Vida Continua… (2012).

Foto: Divulgação

Wagner de Assis, diretor deste Kardec, foi também quem dirigiu o enorme sucesso Nosso Lar, tornando-se, por assim dizer, um especialista no tema.

Baseando-se, portanto, na literatura biográfico/investigativa de Marcel Souto Maior Kardec: A Biografia (2013) – o filme Kardec, em termos técnicos, opta por uma narrativa excessivamente lenta, repleta de música instrumental grandiloquente e dramática (responsabilidade de Trevor Gureckis), fotografia sempre escura e acinzentada (Nonato Estrela). Ainda que a falta da luz elétrica do período e local histórico retratados justificasse o uso de uma paleta mais escurecida para o filme, o somatório desses fatores – ritmo lento, música “edificante” e fotografia excessivamente sóbria – tornam alguns momentos do longa quase “sonolentos”.

Destacam-se, positivamente, a reconstrução digital da Paris de meados do século XIX, o figurino impecável e fiel e a belíssima cenografia.

A escolha dos atores principais também se mostra um acerto. Leonardo Medeiros está física e dramaticamente irrepreensível como o Allan Kardec do filme e Sandra Corveloni – dando vida ao cônjuge de Kardec, Amélie-Gabrielle Boudet – mostra mais uma vez seu enorme talento (já premiado em Linha de Passe, de 2008) e estupenda versatilidade.

Artisticamente, o longa de Wagner de Assis peca por ser extremamente reverencial, criando cenas que parecem ter sido concebidas tão somente para que o personagem principal pudesse quase que declamar algumas de suas mais famosas frases de efeito e sentenças doutrinárias constantes de suas publicações, com direito a trilha sonora crescente e closes.

Foto: Divulgação

As cenas que retratam as comunicações mediúnicas são absurdamente simples/minimalistas, deixadas à conta da imaginação e entrega física dos atores por elas responsáveis. As conclusões a que Allan Kardec chega em certos momentos não são muito bem explicáveis pelo contexto no qual ele estava inserido; alguns arcos são deixados sem melhor desenvolvimento (o que representavam aquelas numerosas cartas que Kardec passou a receber depois da publicação de O Livro dos Espíritos? Eram na maioria críticas? Elogios? Por que ele se sentia tão abalado por causa delas?); a oscilação da postura de Kardec – às vezes assertivo e decidido, outras vezes inseguro e emotivo – também incomoda, até mesmo na última cena quando, meio que num passe de mágica, o personagem sai de uma triste reflexão para uma epifania otimista.

Foto: Divulgação

Parte-se do princípio de que os espectadores já saberiam de antemão o significado de muitas ocorrências; não há aprofundamento na relação cooperativa existente entre Kardec e Ermance Dufaux (Louise D’Tuani) que foi uma médium de fundamental importância para a obra do codificador do Espiritismo.

O filme, nesse sentido, sai-se melhor em seu primeiro arco, antes do Prof. Rivail se tornar Allan Kardec, ao retratar um homem bastante inteligente, digno, firme e convicto. As dificuldades pelas quais o personagem passa após sua conversão muitas vezes soam exageradas, querendo desesperadamente transmitir uma ideia doutrinária nas entrelinhas; e os quase discursos em torno de princípios do Espiritismo, em boa parte perdem sua organicidade.

Não se trata de um filme ruim, mas o tom altamente reverente e quase proselitista prejudicam – e muito – que ele se torne uma obra atrativa para um público mais amplo. Nosso Lar, em comparação, é bem mais agradável de se assistir, mesmo sendo baseado num livro bastante controverso e doutrinário.

Talvez, se a decisão criativa tivesse sido mais voltada para traçar um retrato não do mito, mas do homem, que primeiro tripudiou e depois se dedicou a um fenômeno que os historiadores espíritas dizem que ocorria em todas as partes do mundo simultaneamente, o filme teria se permitido a acertar mais, ficando mais universalista e palatável para os não iniciados.

Uma pena que a intenção de doutrinar superou a de se contar uma história.


Nota: 2,5 em 5 (regular)


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Sou um quarentão apaixonado pela cultura pop em geral. Adoro quadrinhos, filmes, séries, bons livros e música de qualidade. Pai de um lindo casal de filhos e ainda encantado por minha esposa, com quem já vivo há 19 bons anos, trabalho como Oficial de Justiça do TJMG, num país ainda repleto de injustiças. E creio na educação e na cultura como "salvação" para nossa sociedade!!

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